Geração mulheres negras

Feminilidade das Mulheres Negras: muito além dos limites

Feminilidade, de acordo com o dicionário Michaelis, significa aquilo que é “caráter próprio de mulher”. Trata sobre a qualidade e o modo de ser próprio da mulher.  Mas como a feminilidade é construída?

A escritora norte-americana Stasi Eldredge afirma que “aprendemos o que é ser feminina enquanto éramos muito jovens. As mulheres aprendem com a mãe o que significa ser uma mulher e com o pai o valor que uma mulher tem (…) Se uma mulher se sente à vontade com sua própria feminilidade, sua beleza, sua força, então é muito provável que sua filha também se sentirá” (ELDREDGE, 2007; p. 81).

Mas na prática, seria a feminilidade influenciada por uma construção cultural de um imaginário coletivo e midiático? Certamente que sim!

A escritora brasileira Jarid Arraes defende que é necessário debater sobre a profundidade do racismo estético e suas consequências para as mulheres negras. Isto porque o padrão de feminilidade transgeracional da cultura ocidental remede ao esteriótipo de mulheres brancas, frágeis e delicadas, a exemplo das princesas da Disney e das bonecas Barbies.

Historicamente, ao longo de vários séculos e inúmeras gerações, as mulheres negras foram vítimas do trabalho escravo na cultura ocidental. A ideia de embrutecimento associada ao trabalho pesado e forçado faz com que a sociedade contemporânea dissocie das mulheres negras as expressões de meiguice ou fragilidade, e portanto, de feminilidade.

Além disso, o padrão de feminilidade está atrelado à imagem eurocêntrica de mulheres brancas: cabelos lisos, quadris pequenos e traços finos. De modo diverso, as mulheres negras são dotadas de  uma vasta gama de fenótipos em que estão presentes os cabelos crespos, pele escura, nariz largo, coxas e quadris amplos.

Contudo, há de se resgatar o conceito de feminilidade, que significa “aquilo que é próprio da mulher”, INDEPENDENTEMENTE DE RAÇA, FENÓTIPO OU ANCESTRALIDADE GENÉTICA.

A agressão cultural contra a feminilidade da mulher negra é lamentável e dolorosa. Jarid Arraes afirma que “toda mulher negra tem recordações dolorosas da infância e adolescência. As meninas e as jovens negras assimilam que são ‘diferentes’ e sofrem por não se sentirem bonitas – muitas vezes, ao ponto de nem mesmo conseguirem se identificar com a experiência de “ser mulher”. “Mulheres negras se escondem atrás do serviço doméstico, do cuidado com os familiares, do trabalho fora de casa, dos estudos…. e de modo cruel, vivem suas vidas com sua feminilidade secretamente ocultada.

“Se existe uma mulher de verdade – ainda que seja o rastro de uma – ainda ali dentro das queixas, poderá voltar à vida outra vez. Se houver uma pequena faísca debaixo de todas aquelas cinzas, iremos soprá-las até que toda a pilha fique vermelha” (C. S. Lewis)

Para todas as mulheres negras que estão em busca do resgate da verdadeira essência da feminilidade, segue o poema Phenomenal Woman (Mulher Fenomenal) da poetisa negra, ativista e professora norte-americana Maya Angelou:

Mulher Fenomenal

As belas mulheres desejam saber de onde vem meu segredo
não sou bonitinha nem desenhada para o tamanho de um modelo
mas quando começo a dize-las,
elas pensam que estou mentindo.
Digo,
é o alcance dos meus braços,
a curva da minha cintura,
a largura de meus passos,
os meus lábios pendurados.
Sou uma mulher
fenomenalmente,
uma mulher fenomenal,
eu sou.

Ando em uma sala
tranquila ao seu gosto,
quanto ao de um homem,
aos companheiros de pé ou
aqueles que se ajoelham.
Todos ele me cercam
como abelhas em uma colmeia.
Digo,
é fogo em meus olhos,
e o brilho de meus sorrisos,
e o gingado de minha cintura,
e a alegria de meus pés.
Sou uma mulher,
fenomenalmente.
Uma mulher fenomenal,
eu sou.

Os próprios homens imaginam
o que vêem em mim.
Eles tentam tanto
embora não possam tocar
meu mistério interior.
Quando tento mostrá-los
eles dizem que ainda não conseguem ver.
Digo,
é a curvatura das minhas costas,
o sol de meu sorriso,
as curvas de meus seios,
a graça de meu jeito.
Sou uma mulher,
fenomenalmente.
Uma mulher fenomenal.
Eu sou.
                                               (Maya Angelou)

Fontes:

ARRAES, J. Os Padrões de Feminilidade e a Mulher Negra. Diponível em: <http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2014/02/26/os-padroes-de-feminilidade-e-a-mulher-negra/&gt;. Acesso em 20 Nov. 2015.

ELDREDGE,S. ; ELDREDGE, J. Em Busca da Alma Feminina: resgatando a essência e o encanto de ser mulher.Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2007.

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